Não podemos ser apenas bons profissionais

Sou do tempo que a aceitação profissional e o reconhecimento vinham do serviço que oferecíamos aos pacientes. As pessoas marcavam consulta comigo por que eram indicadas por alguém que passou pelos meus cuidados ou por um nobre colega que acreditava no meu trabalho.

Somos hoje, “influencers” dependentes. O caso recente de Cristiano Ronaldo, dispensando a Coca-Cola em uma coletiva de imprensa e pedindo as pessoas para beber água, fez o valor das ações da empresa despencar em segundos.  A qualidade dos serviços vem sendo trocada pela quantidade de likes nas redes sociais. Somos mais influenciados pelas pessoas que admiramos, sem ao menos conhecê-las, do que pelo nosso próprio vizinho, ou amigo.

Não tem nada de errado nisso tudo. As mídias e a internet permitiram a socialização do conhecimento e mudaram a forma como as pessoas adquirem produtos e serviços.

Segundo dados do IBGE de 2016, sete em cada dez brasileiros estão conectados a rede; 98% por meio do celular; 66% estão ativos nas redes sociais e 89% buscam por um serviço ou produto na internet.

Tendo talento e uma boa dose de conhecimento dos meios, um artista pode se tornar famoso, sem ter passado pela televisão, ou pelas grandes mídias do passado. Com isso, desconhecidos viram celebridades e um sem número de novas profissões surgiram nesse meio.

A pandemia levou o curso presencial para dentro das telas, barateando o conhecimento e trazendo um novo formato de distribuição, fazendo muitos profissionais “autoridades” em um determinado assunto. 

Isso tudo vem acontecendo juntamente com a perda dos limites de várias profissões, que vão abocanhando procedimentos que eram exclusivos de uma determinada profissão, somado a isso, a tendência é que ocorra a substituição das tarefas cognitivas e manuais. Estima-se que 45% das atividades feitas por humanos sejam automatizadas dentro de pouco tempo. A Harmonização Orofacial, já não pertence mais somente a medicina, mas também a Odontologia, ao (a) Esteticista, e a áreas afins da saúde. A Ortodontia logo não vai mais pertencer somente a especialidade, já que softwares avançados e empresas terceirizadas estão permitindo ao clínico geral também “alinhar dentes”.

Essas mudanças nos processos de atendimento na área da saúde tornam os tratamentos mais acessíveis, trazem versatilidade e novas possibilidades, porém perdem parte da sua individualidade. A inteligência artificial otimiza muitos processos, mas ainda não consegue superar certas capacidades humanas, como a empatia. Assim tratamentos padronizados para os pacientes tendem a não atingir seus objetivos em grande parte dos casos, pois os softwares, mesmo que operados por um bom profissional, que está por trás dele em uma determinada empresa, não consegue ter sensibilidade para perceber as queixas e necessidades que os pacientes possuem. Assim esses avanços tecnológicos não dispensam a avaliação e condução do caso por um profissional devidamente capacitado dentro da especialidade, para direcionar as ferramentas no sentido de atender os objetivos do paciente.

A Ortodontia não se resume ao alinhamento dos dentes, mas ao relacionamento dos dentes entre si, a disposição que eles ocupam no sorriso e na face, ao correto engrenamento das articulações da boca e o equilíbrio da musculatura de lábios, bochechas e língua. Isso requer um profundo conhecimento de todas as estruturas faciais relacionadas aos dentes, além da parte técnica em si. Assim como, em uma obra, o engenheiro projeta as bases e os alicerces para que uma construção seja edificada com segurança, o mestre de obras que fiscaliza as etapas, o pedreiro que executa e todos os demais que compõe o processo até a estética final, na odontologia também dependemos de outras especialidades que devem estar afinadas para que todas as etapas sejam cumpridas de forma correta, para que os trabalhos durem ao longo do tempo. Assim, ao terceirizar etapas para empresas ou softwares, se perde essa individualização dos casos.

O mercado de serviços hoje, não depende apenas das tecnologias e do conhecimento, mas depende da experiência, domínio das ferramentas e de pessoas. Pessoas que tratam de pessoas. Parafraseando Ronald Jung: “Ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Empatia e individualidade são tão essenciais quanto as tecnologias. Atualmente, os bons profissionais, não dependem apenas de bons resultados, mas também do posicionamento nas mídias. Porque nem sempre o melhor profissional, é o que mais se destaca.

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André Zambonato
Mestre em Ortodontia

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