E, por fim, a escolha da profissão

Não acreditei ser possível chegar até essa conclusão contar antes o principio, por isso considerei trazer um pouco do contexto.

Normalmente na faculdade de medicina, ao passar pelas disciplinas básicas que, mesmo importantes, são um pouco frustrantes e não trazem a dimensão do curso e nem preenchem nossos anseios imediatos.

Os primeiros contatos com pacientes se dão na semiologia, momento em que vestimos o jaleco branquinho e engomado, estetoscópio do pescoço, prancheta na mão e nenhuma noção na cabeça.

Passamos por várias experiências para aprender a examinar os pacientes, ao mesmo tempo começamos a entender o outro e a nós mesmos, é uma trajetória singular e muito particular; sem duvida após o choque da anatomia, é um dos melhores momentos para o iniciante na arte oculta de Hipócrates.

Auscultar, percutir, palpar, ouvir…era um tempo em que a tecnologia ainda não dominava o mundo, o exercício do raciocínio era estimulado com prazer e considerado uma vitória diária.

Imagine que aprendíamos em hospitais específicos para cada área, então era sopro e arritmia para todo lado na cardiologia; sibilos, estertores e toda a parte pulmonar era ministrada no Pavilhão Pereira Filho, uma referencia nacional. Andávamos nas nuvens entre verdadeiras lendas…

Já a semiologia abdominal era ministrada em vários locais, meu grupo foi designado para frequentar o Hospital Santa Rita, uma unidade mais sombria e sem muitos investimentos na época, e eu fui incumbido de examinar um paciente emagrecido, olhos fundos, caquético, triste, com o abdome globoso, mas sem duvida riquíssimo em dados semiológicos (que eu sequer compreendia) …

Lembro que eu me senti muito mal na ocasião, odiei aquela experiência, prometi que não voltaria ali tão cedo, e passei a fugir daquele local ingressando em outros grupos de estagio, mas ali eu não voltaria jamais, eu pelo menos pensava.

Lembro também que quando conheci minha esposa e companheira ela frequentava a ala de oncologia pediátrica do Hospital de Clinicas de Porto Alegre, precisei de muito amor para burlar a segurança e insistir no namoro, mas também o almoço no refeitório compensava.

Mais tarde, ao frequentar as disciplinas dos ciclos cirúrgicos e clínicos, nos apaixonávamos a cada encontro com as novas experiências, diante de professores valorizados e apaixonados (nem todos!) e cada uma era um convite para seguir carreira.

Desde o inicio, eu gostei de cirurgia, mas com o tempo isso foi se perdendo e eu adquiri gosto por áreas clinicas… flertei com a cardiologia, dancei a valsa com a infectologia, mas terminei subindo ao altar com a cirurgia mesmo.

Fui monitor de infectologia por anos, eu gostei muito daquele local, cheguei a enfrentar uma greve de médicos na época em que passava nessa enfermaria, momento em que fiquei sozinho, sendo elevado a categoria de medico por uns meses.

Aqueles meses foram incríveis para toda a turma, pois o hospital ficou praticamente nas nossas mãos, dividimos experiências surpreendentes.

Mas a infectologia foi se transformando em algo meio burocrático, a riqueza da enfermaria foi se perdendo e percebi que era a diversidade de casos que fazia aquele local ser magico.

Depois de muito dançar, decidi-me pela cirurgia geral, e ali me inseri.

A vida de residente é bastante intensa e era o jeito de alcançar um treinamento avançado. Tive a grata oportunidade de ficar na equipe do Dr Pitrez, que servia como pai, conselheiro, amigo e orientador.

Ele foi nosso padrinho de casamento, de todos é com ele que ainda mantenho laços afetivos e contato.

Seguia firme para o final da especialização em cirurgia geral, de forma que era natural adentrar nas outras especialidades para dar rumo as escolhas seguintes…comecei então a frequentar a urologia, área que passou a me atrair. O grupo era fantástico, a especialidade era muito completa e eu aos poucos me via cada vez mais atuando como responsável pela enfermaria da urologia.

Aqui é interessante entender que esse processo era natural e gradual para todos nós, os jovens cirurgiões aos poucos assumiam seus postos nas especialidades sem pressão e nos dávamos como certos naquela posição.

E veio o estagio final, que eu escolhi na urologia naturalmente…. E foi estranhamente decepcionante, pois descobri que não era bem aquilo que eu queria… o que passou a ser natural, se transformou num tormento, pois como eu poderia desistir?

E procurei o prof Pitrez e me confessei…. que devo fazer?

Após uma longa conversa, analise de opções ele me convidou para conhecer áreas diferentes, e dentre elas estavam as disponibilizadas no Hospital Santa Rita, aquele que eu jurei nunca mais voltar, mas que passava por uma modernização….

Radioterapia? Oncologia? ele sugeriu… explique que não me atraia muito, gostava de cirurgia mesmo, então ele me apresentou à cirurgia oncológica, que também não me chamou muito atenção, mas ele disse para eu me inscrever na seleção e ponderar, enquanto eu faria a prova para urologia.

O que aconteceu a seguir foi a confirmação da premonição inconsciente que tive: Deus escreve certo sempre e se você não entender o recado, Ele te coloca no caminho de qualquer jeito, gostando ou não.

Eu, apesar das já relatadas dificuldades, sempre me saí bem nas provas da faculdade, e naturalmente não me preocupava com notas e nessa de urologia eu fiquei atrás por uma questão apenas…o que significava a desclassificação, afinal ninguém desistia.

O resultado foi estranho, pois me perguntavam o que havia acontecido e eu, com um misto de alivio e tristeza pessoal, segui o caminho pavimentado maliciosamente para chegar aqui nessas linhas.

Enquanto isso, a cirurgia oncológica me observava como entidade viva, onipotente e onipresente confirmada pela minha classificação nessa outra seleção.

E lá fui para o Hospital Santa Rita, que eu neguei e evitei durante quase 8 anos, envergonhado enquanto ele me observava do alto, e me recebia agora de braços abertos quase dizendo: eu avisei desde o princípio!

A primeira cirurgia com neófito foi uma nefrectomia, cirurgia de retirada de rim, cuja complexidade eu não havia presenciado ate então mesmo na urologia.

O Cirurgião Geral quando se forma, acha que sabe…e eu tomei um tapa de luva nessa ocasião, quando o Dr Pio Furtado, outra das lendas que viria a conhecer e admirar, entrou para salvar o paciente ao fazer o reparo da veia cava que sangrava descontroladamente….

Naquele momento eu – juro – me perguntei, aonde eu havia andado até aquele momento? Era isso que eu procurava!

Anos mais tarde uma ligação dos proprietários do Ceonc para meus professores do hospital Santa Rita ia me direcionar aqui para o Sudoeste do Paraná… viram? Ele planeja e você segue sem perceber.

https://www.instagram.com/dr.danielrech/

Daniel Rech
CIRURGIÃO ONCOLOGICO
CRM 24166
RQE 19815 – 19814

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *