Sobre o sofrimento intolerável

“O sofrimento humano só é intolerável quando ninguém cuida”.

Esta linda e triste frase é de autoria de Dame Cicely Saunders uma profissional da saúde (enfermeira, assistente social e médica) que dedicou sua vida aos Cuidados Paliativos.

Apesar de ser um dos lemas do movimento de Cuidados Paliativos, acredito que, com ela, podemos refletir o quanto o sofrimento se torna intolerável que leva às pessoas a desistirem de existir. E mais ainda, o quanto o cuidado alivia o sofrimento.

Eu poderia trazer estatísticas atualizadas do número de suicídios no Brasil e no mundo. E sim, eu fui buscar esses dados: em 2019, mais de 700mil pessoas se suicidaram no mundo. Lendo as diversas estatísticas, taxas e estimativas, encontrei uma que me chocou. A cada 40 segundos, alguém decide desistir da sua vida. A cada 40 segundos, o sofrimento se torna tão intolerável para aquela pessoa que ela decide interromper seus sonhos, suas conquistas, suas dádivas, deixando para traz uma família enlutada e com sentimentos enormes de culpa por não ter entendido a tempo o que estava acontecendo.

Campanhas como o Setembro Amarelo trazem ao foco um problema de saúde pública que muitas vezes preferimos varrer para debaixo do tapete. Talvez os suicídios retratem a nossa falta de sensibilidade como sociedade em enxergar as pessoas que estão sofrendo. Preferimos acompanhar os stories maravilhosos do Instagram e Facebook que retratam a vida de comercial de margarina a olhar para o lado e buscar entender o que as pessoas que estão próximas a nós estão precisando.

Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS afirma que “Não podemos – e não devemos – ignorar o suicídio”. Cada um deles é uma tragédia. Nossa atenção à prevenção do suicídio é ainda mais importante agora, depois de muitos meses convivendo com a pandemia de COVID-19, com muitos dos fatores de risco para suicídio – perda de emprego, estresse financeiro e isolamento social – ainda muito presentes”.

A OMS acaba de lançar uma orientação para os gestores da saúde que sugere 4 “simples” ações para a prevenção do suicídio:

  • limitar o acesso aos métodos de suicídio, como pesticidas e armas de fogo altamente perigosos;
  • educar a mídia sobre a cobertura responsável do suicídio;
  • promover habilidades socioemocionais para a vida em adolescentes; e
  • identificação precoce, avaliação, gestão e acompanhamento de qualquer pessoa afetada por pensamentos e comportamentos suicidas.

São ações que demandam políticas públicas na área de saúde mental que envolvem, além da restrição às oportunidades, o cuidado do sofrimento das pessoas que apresentam pensamentos e comportamentos suicidas.

E quando esses pensamentos e comportamentos suicidas nos alcançam, precisamos lembrar que estamos aqui para sermos felizes e para crescermos. Estamos nos dedicando a aprender uma linda lição: como amar e ser amado incondicionalmente. Milhares passam fome pelo mundo, milhões não possuem sequer um teto, temos uma guerra que dizima milhares de pessoas seja física ou psicologicamente. Todos os dias, mais alguém clama por atenção e por ajuda, por amor e compaixão. Escutem o som das suas vozes, escutem como se fossem música, uma linda e inspiradora música. Garanto a vocês que ao abrir o coração para essa melodia, sua vida passará a ter um significado esplêndido. Saibam que cada um de nós, está aqui por um motivo e o SEU motivo pode ser estar aqui e ali para quem precisa.

E por fim, seja gentil. Seja gentil consigo e com o outro. Seja o sol no dia nublado de alguém.

Paz e Bem! Até a próxima.

Cinthya Rech
ENFERMEIRA PALIATIVISTA
COREN PR 104793

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