Para onde vai nossa profissão

Dentes sorridentes

O mercado de serviços para os mais pobres no Brasil é sempre uma mentira

Folha de S.Paulo

Luiz Felipe Pondé Escritor e ensaísta, autor de ‘Notas sobre a Esperança e o Desespero’ e ‘Política no Cotidiano’. É doutor em filosofia pela USP

8 nov. 2021

“O Instagram estabeleceu o sorriso como uma commodity. Criou-se um gigantesco mercado odontológico de sorrisos. Mas, antes de olharmos mais de perto esse fenômeno social e econômico —refiro-me ao vínculo entre sorrisos e exploração odontológica—, façamos um reparo metodológico.

Durante o longo período histórico e pré-histórico em que quase nada aconteceu em termos de técnica, produção de riquezas e transformações sociais, a corrupção e o abuso entre pessoas e grupos permaneceram contidos pela própria pobreza geral da humanidade.

Como nos diz Thorstein Veblen (1857-1929) no seu genial “The Theory of the Leisure Class”, de 1899, a mulher deve ter sido o primeiro objeto de acúmulo na nossa história. Ter muitas mulheres indicava o poder de um homem —os escravos em geral também.

Esse fato, claro, aponta para o evidente vínculo entre poder, riqueza e violência.

À medida que a modernidade, essa “parvenue” —essa recém-chegada na história, sem modos, que se acha— criou a aceleração do processo de produção, riqueza e aglomeração urbana, a corrupção e o abuso se fizeram indústria e escalaram para a condição de um mercado de relações comerciais em si.

Esse fato atravessa classes sociais e tem suas características especificas em cada nicho. Hoje, olhemos para o nicho dos mais pobres, ou das classes C e D, como se falava nos tempos do milagre econômico do Lula. E aí chegaremos à relação entre sorrisos e um certo mercado odontológico abusivo.

Disclaimer: evidente que o “abusivo” aqui não se refere à totalidade do mercado odontológico. Hoje, devemos falar como se fala com crianças para não ser mal interpretado.

Na era das redes sociais todos devemos editar nossos sorrisos. Afinal, ficar bem na foto e no vídeo é essencial para existirmos. Sorrir bonito é ter dentes bonitos.

Essa necessidade imperiosa abriu o mercado para todo tipo de empresa oportunista que vende sorrisos lindos a troco de custos mais baixos, mas que entrega, antes de tudo, muito abuso sobre suas vítimas.

Muitos veem esse fenômeno apenas como o crescimento natural do mercado de serviços para a população de baixa renda. Em tese, diante da impossibilidade de o Estado cuidar de tudo, o mercado é bem vindo, no sentido de dar acesso a serviços para os mais pobres.

O problema surge quando esses serviços se tornam oportunidade para abusos, como vem acontecendo entre nós. A corrupção é parte intrínseca das relações comerciais desde sempre, e permanece sendo na modernidade, só que empacotada para presente.

Imagine pessoas com baixo repertório, inclusive para consumo de bens de saúde. O mercado de bens de saúde é um dos mais ativos, ricos e promissores do mundo, já que viver bem, bem-estar e longevidade estão entre as commodities mais importantes do século 21.

Essas pessoas fizeram escolas ruins, quando fizeram, leem mal e, quanto tomais velhas ficam —a idade avançada, hoje mais do nunca, é uma oportunidade para o mercado predatório e oportunista—, mais difícil para elas entenderem processos contemporâneos de relações comerciais, entre outras.

A pessoa que a atende na hora da venda do sorriso perfeito para o Instagram promete uma Disney de serviços e resultados. Os detalhes técnicos, quase sempre incompreensíveis para leigos, ainda mais para leigos de baixo repertório, pouco importam, principalmente diante da Disney que a espera ao fim do tratamento “de rico” que ela, finalmente, alcançou.

Depois de pagar caro em mil vezes no cartão, começa a via-crúcis do cliente vítima da falsa Disney dos dentes sorridentes. Detalhes que passam despercebidos na hora da contratação aparecem para atormentar a vítima.

Esses detalhes implicam sofrimento, dor, atrasos na entrega, idas e vindas, profissionais de difícil agenda, dificuldades remetidas a terceiros —como os laboratórios de prótese —, enfim, a rjdura consciência de que, mesmo que a promessa se realize, isso só acontecerá depois de muito abuso e muito gasto acima do contratado de partida.O mercado de serviços para os mais pobres no Brasil é sempre uma mentira.”

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Hà muito tempo reflito sobre esse assunto: “Para onde vai nossa profissão?”

Em 2016, foi publicado, na revista Exame, uma pesquisa, intitulada: “As 40 profissões e carreiras em baixa no Brasil”. A única profissão da área da saúde citada, foi a Odontologia. Motivo: Mercado saturado.

A Organização Mundial da Saúde, emitia dados sobre o número de leitos hospitalares e número de profissionais/por habitantes, que seria recomendado como ideal em uma sociedade. Já sabemos, que a OMS, nunca se referiu a isso como índice de referência ideal para a atuação profissional. Sociedades diversas tem suas próprias demandas e não se pode dizer que, o que é ideal para uma, vai ser para outra.

Sou formado há 28 anos. Quando ingressei na minha especialidade, éramos apenas 5 profissionais atuando em Francisco Beltrão. Nosso único marketing, era nosso trabalho. As pessoas nos encontravam. Atualmente, é o profissional quem tem que encontrar o paciente. E os anúncios e promessas de tratamentos fantásticos a preços acessíveis se tornaram a atracão principal, no mundo de uma nova profissão que surgiu, em contrapartida a tantas outras que deixaram de existir, das mídias sociais. Coaches, criadores de conteúdo digital, influencers e tantas outras designações de profissões novas brotam nas plataformas digitais todos os dias oferecendo a “fórmula secreta” para obter pacientes.

Muitos profissionais estão trabalhando em franquias que ficam com a maior parte do trabalho executado por eles. As franquias oferecem o “marketing pronto”, o “serviço padronizado”, uma boa apresentação do espaço físico, porém levam o nome da franquia e não do profissional. Muitos donos de franquias odontológicas nem são dentistas, são empresários que viram uma oportunidade de ganhar dinheiro, explorando o trabalho de outros.

Sou do tempo onde os professores de Odontologia eram profissionais diferenciados e ensinavam a sua arte por amor e por um objetivo específico, que era formar bons profissionais, para a valorização da profissão. As escolas tinham um objetivo em comum com os professores. O ensino e as escolas viraram um meio de gerar dinheiro. Ser professor, obviamente que não estou generalizando, virou uma forma de marketing e não diferencia mais os profissionais. Existem cursos para todos os lados. Ser especialista virou tão banal, quanto ser apenas mais um no mercado.

A maioria das pessoas não conseguem distinguir o trabalho de um profissional extremamente comprometido com sua profissão, de outro que faz mais propaganda do que o serviço que ele pode oferecer.

Assim chegamos ao estado em que se encontra nossa Odontologia, retratada no texto do Luiz Felipe Pondé, citado acima.

A Odontologia é uma necessidade cara. Não quer dizer que é inacessível para as classes menos favorecidas, por que muitos podem pagar bons profissionais, com organização de suas necessidades e planejamento financeiro, assim como a negociação, que está aberta a todos. O que acontece é que muitos são iludidos com falsas promessas de preços acessíveis e muitas vezes comprometem sua renda em tratamentos que os levam a mais gastos. O excesso de profissionais, faz uma profissão perder  a sua função social, para virar um mercado onde todos são concorrentes, explorando ao máximo os baixos valores, oferecendo muito pouco em troca, principalmente em uma sociedade como a nossa  que infelizmente não foi preparada para trocar o seu serviço, por sua reputação, apenas pelo dinheiro.

André Zambonato
MESTRE ORTODONTISTA

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